segunda-feira, 6 de abril de 2009

Facilidade de Pintar

FACILIDADE DE PINTAR
De Henri Matisse para Henry Clifford
Vence, 14 de fevereiro de 1948

Espero que minha exposição seja digna de todo o trabalho que lhe está dando e que me comove profundamente. Tendo em vista, porém, a grande repercussão que pode ter, e vendo quantos preparativos estão sendo feitos para ela, pergunto-me se o seu âmbito não terá uma influência mais ou menos infeliz sobre os jovens pintores. Como interpretarão eles a impressão de aparente facilidade que lhes produzirá uma visão geral e rápida e até mesmo superficial, de minhas pinturas e desenhos?
Sempre tentei ocultar os meus esforços, sempre desejei que minhas obras tivessem a leveza e a alegria da primavera, que nunca nos permite suspeitar o trabalho que custou. Por isso, receio que os jovens, vendo em minha obra apenas uma facilidade aparente e negligência no desenho, se sirvam disso como desculpa para evitar certos esforços que me parecem necessários.
As poucas exposições que tive a oportunidade de ver durante estes últimos anos levam-me a temer que os jovens pintores estejam evitando a lenta e penosa preparação necessária à educação de qualquer pintor contemporâneo que pretenda construir apenas pela cor.
Esse trabalho lento e penoso é indispensável. Na verdade, se os jardins não fossem cavados no momento adequado, em breve não serviriam para nada. Não precisamos primeiro limpar o terreno para em seguida cultivá-lo a cada estação do ano? Se o artista não soube preparar o seu período de floração, mediante um trabalho que apresenta pouca semelhança com o resultado final, breve é o futuro que tem à sua frente: quando um artista “venceu” já não sente a necessidade de voltar à terra de tempos, começa a andar à volta, repetindo-se, até que sua curiosidade se extingue nessa repetição. O artista precisa possuir a natureza. Deve identificar-se com o seu ritmo, por meio de esforços que preparem o domínio que mais tarde lhe permitirá expressar-se na sua própria linguagem. O futuro pintor deve saber que é útil para seu desenvolvimento — desenho, ou mesmo escultura —, tudo o que o levará a identificar-se com a Natureza, entrando nas coisas — é a isso que chamo Natureza — que lhe provocam sentimentos. Considero essencial o estudo por meio do desenho. Se o desenho pertence ao Espírito e a cor aos Sentidos, é preciso desenhar primeiro, cultivar o espírito a ser capaz de conduzir a cor pelos caminhos espirituais. É isso que quero dizer bem alto, quando vejo o trabalho de jovens para quem a pintura já não é uma aventura e cujo único objetivo é a exposição individual que os ponha no caminho da fama. Só depois de anos de preparo deve o artista jovem tocar na cor — isto é, não como uma descrição, mas sim como meio de expressão. Só então pode ele esperar que todas as imagens, ou mesmo todos os símbolos que usar sejam o reflexo de seu amor pelas coisas, um reflexo em que ele pode confiar, caso tenha realizado sua educação com pureza e sem mentir para si mesmo. Então ele empregará a cor com discernimento. Irá colocá-la de acordo com um projeto natural, não formulado e totalmente disfarçado, que nascerá diretamente de seus sentimentos: foi isso que permitiu a Toulouse-Lautrec, no fim de sua vida, exclamar: “Finalmente, já não sei mais desenhar”. O pintor que está apenas começando acha que pinta com o coração. Só este último está certo, porque seu treinamento e disciplina lhe permitem ceder a impulsos que ele pode, pelo menos em parte, disfarçar. Não tenho a pretensão de ensinar: quero apenas que minha exposição não provoque interpretações falhas naqueles que ainda precisam abrir o seu caminho. Gostaria que as pessoas soubessem que não podem abordar a cor como se entrassem por uma porta, que é necessário passar por um rigoroso preparo para ser digno dela. Mas, antes de tudo, é evidente que devemos ter um dom da cor, como o cantor deve ter voz. Sem esse dom, não podemos chegar a lugar nenhum, e nem todos podem dizer como Corregio: “Anch’io son pittore”. O colorista faz sentir sua presença até mesmo num simples desenho a carvão.
Meu caro Sr. Clifford, chego ao fim de minha carta. Comecei-a para dizer-lhe que compreendo o trabalho que está tendo comigo no momento. E vejo que, obedecendo a uma necessidade íntima, fiz desta carta uma expressão do que sinto sobre o desenho, a cor e a importância da disciplina na educação de um artista. Se acha que todas essas minhas reflexões podem ser úteis a alguém, faça com esta carta o que lhe parecer melhor...
Henri Matisse

3 comentários:

antonio disse...

Sou um artista plástico quando Deus fez o mundo,espalhou por ele pessoas maravilhosas,e nos deu a missao de encontra-las,cumpri a minha te encontrei!

London disse...

Parabéns por esse comentário amigo, muito feliz por ler estas palavras!! Vc tem umas cores muito belas, cenários bem localizados, e uma iluminação muito massa!! Parabéns!!

JG Fajardo - Pintor e Desenhista Hiperrealista disse...

Reider

Aprecio quem leva a pintura a sério. Nós pintores brasileiros precisamos cada vez mais disso e, de mais atenção e envolvimento de parte da sociedade, entenda-se: empresários, intelectuais, políticos, governantes, etc. para assim, gerarmos mais oportunidades, negócios, produzindo beleza. Compartilho com você ideais parecidos. Felicidades!

JG Fajardo